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09 março, 2015

Nem defesa do governo, nem impeachment. Nem dia 13, nem dia 15

Quase cinco meses após a abertura das urnas, o Brasil parece ainda viver o clima eleitoral. Quase um
Fla-Flu. Agora sem Aécio como oponente, ou defende-se o governo ou pede-se o impeachment da presidenta Dilma. Trata-se de um tolo antagonismo que impede um debate mais aprofundado dos problemas estruturais políticos e econômicos. Pior, municiados por uma rasa informação repercutida pela imprensa, o embate despolitiza e impede a agenda de alternativas melhores para o país.

Convocadas por centrais sindicais, movimentos sociais e estudantes, a manifestação do próximo dia 13 pretende defender os direitos dos trabalhador, a Petrobrás de sua privatização, exigir a reforma política e contrapor os "golpistas". Luta legítima que neste momento ficará em segundo plano e fará com que o ato sirva apenas para defender o governo federal, que, diante da inação na crise política, demonstra-se cada vez mais indefensável.

É inegável a política positiva na área econômica do primeiro mandato da presidenta Dilma. Assim como falou no discurso em rede nacional no último dia 08, o governo implementou diversas medidas para garantir empregos e manter a atividade econômica, como a redução de tributos, incentivo ao crédito e política cambial. Foram medidas anticíclicas que serviram aos trabalhadores e aos patrões.

O que se observa agora é que tais arranjos ultrapassaram um limite razoável e hoje há exigência de um esforço enorme dos brasileiros para voltar ao equilíbrio. E a política de austeridade implementada pelo novo Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, atacou diretamente benefícios previdenciários e trabalhistas, os quais atingem sobretudo os trabalhadores mais precarizados. Além disso, a desoneração das folhas de pagamento foram revistas e a tendência é aumentar o desemprego e a informalidade.

Quem pagará ao final das contas? O trabalhador, claro. Qual a contrapartida na redução da máquina pública ou na criação de uma tributação sobre quem mais pode, como os que detém grandes fortunas? Nada. Houve redução de recursos na educação (Pátria Educadora?) que já afetam programas desenvolvidos em universidades. Como defender um governo que age assim?  Como defender um governo que fez uma campanha classista no segundo turno e entregou ministérios a conservadores, liberais e representantes do capital?

O governo age ainda como se estivesse quase nocauteado. Fulminado por denúncias de corrupção, não reage, não dialoga, não se comunica. Continua refém de um congresso fisiologista que vive das negociatas. Recém iniciado, o mandato da presidenta não apresenta qualquer reação que anime os cidadãos, nem mesmo a quem a apoiou. Estranhamente, parece que aguarda apenas a punhalada final.

Isso posto, com um quadro absolutamente ruim, nada justifica pedidos de impeachment. As manifestações de descontentamento são legítimas e necessárias, mas quem deseja o breve fim do governo Dilma indubitavelmente trabalha contra o país. Tanto pela instabilidade jurídica que há de vir, especialmente porque não há nenhuma denuncia de corrupção contra Dilma, quanto pelos que poderão substituí-la. São membros do PMDB os próximos da linha sucessória. Partido amarrado à estrutura arcaica do fisiologismo e das chantagens financeiras, como pode-se ver no caso da Petrobrás. 

Caso, aliás, que advém de um processo político viciado e corrupto, mantido por corruptores de alto grau como exemplo dos empresários de algumas das maiores empreiteiras do mundo e que estão presos neste momento. Nosso problema, portanto, vai além de um nome escolhido como bode expiatório. Está cada vez mais insustentável este modelo de representação.

Nem mesmo as manifestações de junho não foram suficientes para resultar em melhores serviços públicos, maior participação nas administrações e menos ainda na alternância dos políticos. Urge-se, portanto, uma reforma política que possa resgatar a credibilidade dos representantes e que lhes deem a independência necessária para avançar em programas que permitam um desenvolvimento menos desigual, garantindo o mínimo de qualidade de vida.

Neste momento, nenhuma mudança ocorrerá defendendo o governo cegamente, como se pretende no dia 13, ou através do pedido de impedimento da presidenta, no dia 15 de março. Neste Fla-Flu de governismo cego ou de uma direita alienada (ou golpista), não ganha o Brasil. A pressão deve ser ampliada e incidir tanto sobre o Congresso Nacional, ignorado quase sempre, quanto sobre os governos federal, estadual ou municipal.

As ruas devem sim ser ocupadas mas para pressionar por mudanças de rumos nas estruturas políticas. Os resultados positivos para um novo país passam sobretudo a partir de uma reforma política, que garanta representação popular mais democrática e participativa; pela democratização dos meios de comunicação, combatendo o monopólio e permitindo a diversidade de opiniões e; pela reforma tributária, que incida desigualmente sobre os desiguais, promovendo mais justiça social. Sem estas reformas estruturais, mudam-se apenas os nomes na administração do país e a insatisfação continuará a mesma.

Nenhum dos dois atos, até o momento, querem avançar concretamente nestas pautas. Não me contempla, portanto, qualquer destas manifestações de março.

Por Leandro de Jesus
Foto: Valter Campanato/ABr

10 janeiro, 2015

Passe Livre, vitória das manifestações e o novo reajuste

Governantes ensaiam benefícios e ao mesmo tempo promovem reajustes nas tarifas

O passe livre de estudantes no transporte público cada vez mais torna-se realidade em diversas
cidades brasileiras. A constatação é uma só: o benefício é resultado direto das manifestações de rua que aconteceram em todo o Brasil, em 2013. Mas engana-se que acha que o direito concedido é suficiente. Em 2015, a população continuará exigindo mudanças e, sem diálogo, as ruas voltam a ser a alternativa.

Não se pode negar que a conquista de passe livre estudantil é algo histórico. Há distorções, é verdade, mas o direito foi concedido graças a pressão popular, que há anos luta pela isenção e teve seu ápice nas manifestações de junho de 2013.

Embora as regras possam ser melhoradas, deve-se assumir vitória, o que não fora feito pelos MPL de Poá e São Paulo, responsáveis diretos pelas manifestações. Insatisfeitos com os programas, ignoraram ou relativizaram-no. Estima-se que na cidade de São Paulo aproximadamente 500 mil alunos poderão utilizar ônibus, trens e metrôs gratuitamente. Em Poá, na Grande São Paulo, 30 mil estudantes poderão ser beneficiados a partir deste ano. Suzano já dispunha do benefício e Ferraz de Vasconcelos planeja a concessão ainda neste ano.

Isso posto, deve-se compreender que o transporte público ainda é precário e a população tem demonstrado que ele tem de ser tratado como prioridade. Ônibus, trens e metrôs lotados, quebrados, que não cumprem horários, não devem fazer mais parte da vida dos paulistas, é o que diz o grito nas manifestações. Na capital, o expressivo aumento das faixas exclusivas caminhou no sentido da vontade popular mas a política pública não pode retroceder. E o reajuste na tarifa, reclamam os manifestantes, é retrocesso. 

O transporte não é mercadoria e assim não deve ser visto pelos gestores. Ele é a garantia do direito constitucional de ir e vir e poder usufruir da cidade, seja para o estudo, para o trabalho ou para o lazer. Em cidades pequenas, há a possibilidade imediata de o transporte ser totalmente gratuito, como em Marica, no Rio de Janeiro. Poá, com apenas 17km2, poderia seguir neste caminho. Em diversos municípios, a prefeituras foram ousadas e abriram uma empresa pública municipal. Neste cenário, o lucro não é a prioridade, basta que a receita seja suficiente para arcar com custos trabalhistas, de manutenção e investimento.

Agora, com reajuste ou não, as manifestações de 2013 deixaram um claro recado: a população quer participar das decisões públicas. Querem participação popular no desenho das políticas governamentais. Este ano, ignorando completamente a vontade popular, prefeitos e governadores em todo o país decretaram reajuste nas tarifas, sem amplo debate. De fato, não aprenderam nada daquele período. Só resta as ruas, mais uma vez, para fazer valer novamente a vontade popular.

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Veja como foi a sessão na qual, após muita pressão, o PL foi retirado da pauta

Por Leandro de Jesus
foto: Rodrigo Gonçalves

08 novembro, 2014

Vereadores aprovam Passe "mais ou menos" Livre


Por unanimidade, os vereadores aprovaram o Projeto de Lei (PL) que institui o Passe Livre aos estudantes do município de Poá. A votação ocorreu na última terça-feira (04) após intensa pressão do Movimento Passe Livre (MPL) e da UNEafro pela alteração na lei, mas as concessões foram poucas e o benefício não será estendido a todos alunos do município.

Inicialmente, a gratuidade irá contemplar apenas 4,3% dos estudantes do município. De acordo com as informações da Câmara Municipal, em março de 2015, o passe beneficiará a 7 mil estudantes, o que corresponde a apenas 21,5% dos 32 mil estudantes matriculados na rede de ensino em Poá. Ainda não está definido quem serão os poucos privilegiados a receberem a gratuidade.

É certo, no entanto, que não irão ter direito ao benefício estudantes que frequentem cursos de ongs, da rede privada ou que estudem fora do município. Segundo as Secretarias de Administração e de Planejamento, 0,8% do orçamento será voltado para atender o número inicial. A Prefeitura alega que não há recursos para o projeto atingir a totalidade de alunos.

A lei foi aprovada após a realização de duas audiências públicas e três reuniões com o prefeito Marcos Borges (PPS). Antes, em junho, o então Secretário de Transportes, Marcos Pacheco, havia prometido ampla discussão mas a prefeitura negou-se ao debate. Em setembro, na primeira votação, os vereadores aprovaram o projeto de lei com um erro inadmissível: estudantes de baixa renda não teriam direito. O Blog de Poá sempre acompanhou as discussões e antecipadamente já informou sobre as inconsistências do PL. Em seguida, com forte manifestação de estudantes e do MPL, o projeto foi retirado de pauta e audiências públicas convocadas

De acordo com o MPL, o passe livre "é a garantia de pleno desenvolvimento social e intelectual da nossa juventude, propiciando o direito de ir e vir. Nossos estudantes devem ter o direito de se locomover na cidade de forma gratuita. Já é realidade em muitos lugares e também queremos em Poá, sem restrição de idade, renda ou local de estudo. Além disso, o Passe Livre deve prever uso aos fins de semana como forma de garantir acesso a bens culturais nos horários em que não estiver estudando ou trabalhando.

Entre os pedidos do grupo, apenas foram atendidos a eliminação do teto salarial e isenção no pagamento do cartão, além da efetivação do Conselho de Mobilidade Urbana. Agora, a prefeitura deve regulamentar a lei e divulgar o início do benefício e detalhar as regras de uso e aquisição do cartão passe livre

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Veja como foi a sessão na qual, após muita pressão, o PL foi retirado da pauta

Por Leandro de Jesus
Foto: Marcia Demartini (arquivo)

Acompanhe reportagem da TVT

14 junho, 2014

1 ano após manifestações, audiência debate Passe Livre

A Secretaria de Transportes e Mobilidade Urbana de Poá realiza na Câmara Municipal, nesta segunda-feira, dia 16, uma audiência pública para discutir a proposta de implantação do Passe Livre Estudantil.
Foto: Rodrigo Gonçalvez
A discussão acontece um ano após as manifestações de junho que ocorreram por mudanças no transporte público. Em 18 de junho de 2013, ativistas ocuparam a Câmara Municipal e apresentaram uma pauta que incluía o Passe Livre, tarifa a R$ 1,00, municipalização do transporte público, contratação de cobradores e ônibus com acessibilidade a pessoas com deficiências.

No dia seguinte ao ato, os vereadores receberam uma comissão de manifestantes para detalhar as reivindicações. Um ano após os atos, no entanto, a Prefeitura parece distante de promover as mudanças exigidas pelo movimento. A proposta inicial é de que o Passe Livre só seja utilizado para estudantes cuja renda familiar seja de até 3 salários mínimos. A exigência do movimento estudantil, assim como ocorre em projetos de outros municípios, é que a gratuidade seja aplicada a todos como forma de garantir uma política pública que auxilie o deslocamento dos estudantes. Poá já inicia na contramão, dessa forma.

O objetivo, segundo o secretário da pasta, Marcos Pacheco, é discutir prioridades, requisitos, beneficiados, entre outros temas que deverão compor o projeto de lei que, posteriormente, será encaminhado ao legislativo poaense. “Estamos iniciando os trabalhos e essa audiência será muito importante para o direcionamento desse projeto”, afirmou.

A audiência aberta será realizada às 19 horas da segunda-feira, dia 16, na Câmara Municipal, situada na Rua Vereador José Calil, nº 100, Centro de Poá.

Por Leandro de Jesus
com Secom/Poá

12 junho, 2014

#NãoVaiTerCopa é estrategicamente correto mas taticamente equivocado

É absolutamente correta, no sentindo de denunciar as mazelas, a estratégia de estratégia de tensionar diante dos bilhões em gastos públicos para custear um evento que demonstrou não deixar qualquer legado e, pior, que promoveu desalojamentos, mortes, redução de investimentos em áreas sociais prioritárias e enriqueceu, mais ainda, as construtoras e auxiliou no processo de especulação imobiliária.
Imagem: Anonymousbrasil
Os atos, no entanto, são taticamente equivocados quando se concentram em utilizar motes contra uma competição amada pelo povo ao invés de promover a denúncia direta contra os responsáveis pelos desvios, os governantes. Gritos, cantos, nomes, mensagens em faixas e em cartazes são atos simbólicos que dão tom a manifestações e a objetivos e demandas populares. O tom aqui está desafinado e não traz o povo para apoio às lutas. O povo não irá para a rua contra o futebol. Poucos são os grupos que procuram pedagogicamente explicar o sentido dessas lutas e convencer o povo a ir às ruas.

De modo geral, prefere-se falar da copa ou de direitos sociais genéricos e ocultam-se os responsáveis pela gastança irresponsável do erário. A quem interessa esconder um #ForaDilma, #ForaAlckmin #ForaAgnelo #ForaHaddad, entre muitos outros ?

Ocultar responsáveis e atacar uma competição popular apenas contribui para manutenção do status quo. A estratégia é correta mas a tática é equivocada.

Por Leandro de Jesus

03 novembro, 2013

O que as Revoltas de Junho conseguiram de fato?

Cada dia fica mais nítido que as Revoltas (em massa) de Junho não passaram de uma moda, muito breve, por sinal. Espero, porém, estar completamente equivocado nessa avaliação.
Foto: Rodrigo Gonçalvez
Há quem diga que se tratou de uma moda propiciada pelo Facebook, como todas as que comumente vemos. Não faltam exemplos de ações de massa que tomam conta da rede social e são esquecidas imediatamente no dia seguinte. Decerto, não faltavam motivos, como ainda existem, para as massas irem às ruas. A repressão policial em São Paulo na fatídica quinta-feira 13 teria sido o estopim? Não mais me parece razoável já que essas práticas continuam e o gigante voltou a ser um belo adormecido.

Os motivos que levaram as pessoas às ruas ainda dividem opiniões, mas talvez as revoltas daquele período abasteceram o fetiche daqueles jovens que nunca tiveram disposição de ir às ruas e foram encorajados pelo show midiático no qual os atos transformaram-se. Por falar em fetiche, as manifestações, inclusive, foram rapidamente incorporadas pelo capital, que não perde oportunidade e começou a produzir kits-manifestantes com vendas de bandeiras do Brasil ou de máscaras de Guy Fawkes (anarquista católico?) a R$ 80,00, por exemplo. Afinal, o espetáculo tem que ter adereços (símbolos).

O que de fato resultou daquele histórico mês, no entanto? O movimento horizontal, chamados pelos mais diversos grupos e interesses, com pautas diversas, sem liderança e sem coesão não obteve ganhos concretos. Conseguiu vitórias quem sempre foi coeso e sempre esteve nas ruas. Até o momento, a única pauta vencedora, digamos assim, foi a redução de tarifas no transporte, pleiteada há muitos anos pelo Movimento Passe Livre em todo o país. Pauta de quem sempre esteve acordado. É possível colocar ainda nesta conta os recursos do petróleo para a saúde e a educação, proposta há anos levada pelo movimento estudantil e que até então era rejeitada pelo governo federal. A PEC37, também aprovada, é bom dizer que não foi um clamor popular mas uma pauta plantada no movimento pela mídia grande.

É inegável que elas saíram vencedoras somente após ter o apoio das massas mas também é de se notar que nenhuma outra pauta vinda dessa multidão foi efetivamente colocada em prática pelos políticos. A pauta vencedora foi aquela em que manifestantes, se chamados a negociar, tinham condições de debater e exigir, já que havia uma produção de conteúdo sobre o tema. E as outras centenas de pautas? Somente o oba-oba levaria a nada. 

Na ocasião, de que adiantaria invadir o Ministério das Relações Exteriores ou o Congresso Nacional, como se tentou? Não havia objetivo definido ou questões a serem reivindicadas. Ocupariam até a queda do Henrique Alves ou Renan Calheiros? Nada disso foi apresentado.

As massas foram o estopim das vitórias mas sem a existência do movimento de vanguarda, coeso na divergência, e capaz de liderar e apresentar reivindicações, não haveria sucesso. Um depende do outro mas essa equação de soma é tão complexa que ambos se afastaram novamente desde então. Lutas por direitos não faltam. Contudo, resta-nos saber agora quando ambos serão capazes de se fazer entender novamente e voltarão a cruzar os mesmos caminhos.

Por Leandro de Jesus

07 agosto, 2013

Programa Roda Viva entrevistou jornalistas da Mídia Ninja

Na onda de manifestações que ocorreu em todo o país desde junho, os internautas puderam acompanhar as dezenas de eventos ao vivo e em tempo real na rede. Quem estava lá cobrindo, ao lado dos manifestantes, numa narração e transmissão contínua eram os "Ninjas". A transmissão via celular, por meio da tecnologia 3G,  naquilo que se discute ser ou não uma nova forma de jornalismo ativista, engajado, que toma partido, foi assistida por milhares de pessoas

Bruno Toturra e Pablo Capilé, fundadores dos grupos, foram entrevistados no Programa Roda Viva. Falaram sobre como o grupo se financia, sobre o modelo de financiamento de cultura e comunicação no país e da coberturas, nervosa, de manifestações, sobre a independência da mídia alternativa, parcialidade das coberturas, e, inclusive, sobre a prisão de jornalistas das equipes.




Por Leandro de Jesus

29 julho, 2013

Papa Francisco: "Um jovem que não protesta não me agrada"

"Um jovem que não protesta não me agrada. Porque o jovem tem a ilusão da utopia, e a utopia não é sempre ruim. A utopia é respirar e olhar adiante. O jovem é mais espontâneo, não tem tanta experiência de vida, é verdade. Mas às vezes a experiência nos freia. E ele tem mais energia para defender suas ideias. O jovem é essencialmente um inconformista. E isso é muito lindo! É preciso ouvir os jovens, dar-lhes lugares para se expressar, e cuidar para que não sejam manipulados".

Essa foi uma das muitas mensagens que o Papa Francisco deixou aos jovens que acompanharam a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Não se esperava dele mensagens revolucionárias, de radicais reformas ou mudanças de dogmas ou procedimentos da Igreja, pois o papado é por natureza essencialmente conservador. Quem deve tornar a Igreja progressista, se é que isso é possível, são justamente esses jovens católicos. Mas Francisco indicou como deve ser a administração da igreja sob seu comando, menos apegada ao material, mais próxima das comunidades e preocupada com os jovens e a pobreza que ainda assombra parte da população mundial.

Especialmente num momento em que parte da juventude brasileira foi às ruas demonstrar insatisfação geral de como são conduzidas as políticas públicas, os recados do Papa vão ao encontro deste novo período. Ao menos, serve para a juventude católica se mobilizar e serem também agentes da transformação, dos questionamentos e da inquietude.

"Jovens tem uma sensibilidade especial frente as injustiças. Nunca desanimem, não percam a esperança. No coração jovem de vocês, existe o desejo de construir um mundo melhor. Acompanhei atentamente as notícias a respeito de muitos jovens que, em tantas partes do mundo, saíram pelas ruas para expressar o desejo de uma civilização mais justa e fraterna. Os jovens nas ruas querem ser protagonistas da mudança. Não deixam que outros sejam protagonistas, sejam vocês', afirmou Francisco.

'Peço que vocês também sejam protagonistas, superando a apatia e oferecendo uma resposta cristã às questões políticas que se colocam em diversas questões do mundo. Envolvam-se num mundo melhor. Não sejam covardes, metam-se, saiam para a vida. Jesus não ficou preso dentro de um casulo. Saiam às ruas como fez Jesus', insistiu o papa.

Enfim, Francisco mostrou a que veio. Quer mudanças e uma igreja diferente daquela que vinha sendo conduzida por Joseph Ratzinger. A conferir.

Por Leandro de Jesus
Foto: Tania Rêgo/ABr

14 julho, 2013

Vídeo: A borracha cega mas não cala


O fotógrafo Sérgio Silva foi uma das inúmeras vítimas da violência policial que marcou o dia 13 de junho de 2013 e a história das manifestações sociais no Brasil. Enquanto cobria o ato contra o aumento da passagem de ônibus em São Paulo, ele foi atingido no olho por uma bala de borracha disparada pela Tropa de Choque.

Nesta entrevista, Sérgio conta como têm sido seus dias desde a agressão.


 

Entrevistas: Leonardo Blecher; Imagens: Jeferson Stader e Leonardo Blecher; Edição: Jeferson Stader e Leonardo Blecher; Arte: Anah Assumpção

01 julho, 2013

Enquanto te exploras, tu gritas gol e #VemPraRua

De repente, e mais do que nunca, muita gente nas redes sociais deixou de gostar de futebol (o circo, o ópio, como dizem) no bojo das manifestações que tomaram conta das ruas brasileiras e ao mesmo tempo em que ocorria a Copa das Confederações. Nada mais tolo, simplista e maniqueísta do que associar a torcida ao Brasil a alienados e aos neo-revolucionários aqueles que contra a seleção torceram ou a ignoraram.

É tão falso generalizar que a massa de torcedores é alienada quanto dizer que todos os manifestantes são revolucionários e progressistas. Muito pelo contrário, especialmente nesse último grupo.

O futebol faz parte da cultura popular brasileira. A bola é um dos primeiros brinquedos de milhões, se não o único. Esse esporte demonstrou na sua história como pode ser espaço de práticas coletivas, democráticas nas quais se destacam não necessariamente os que possuem maior poder aquisitivo. E mais, no campo político, também há ações de destaque oriundas do futebol. A Democracia Corintiana, liderada por Sócrates, é exemplo nítido de que é possível grandes atitudes além das quatro linhas.

Nada impede, porém, as devidas e corretas críticas e denuncias. Não é incorreto fazer uma Copa do Mundo no Brasil. O que é inescrupuloso é o alto custo, é a prática de corrupção e conluios envolvidos nos mega desvios de recursos públicos nas construções de estádios e dos elefantes brancos, como serão, por exemplo, as arenas de Brasília, Manaus ou Cuiabá. Mais criminoso ainda é custear essas obras, tão somente com recursos públicos, e depois repassar as arenas para que a iniciativa privada goze dos lucros, transformando os palcos de futebol em espaços elitizados, como já se encaminham.

Nada impede também criticar os convocados, o técnico ou mesmo o presidente da CBF, "amigão" da ditadura militar no Brasil e flagrado "embolsando" uma medalha de jogador na final de uma Copa São Paulo. Ou mesmo fazer atos em frente aos estádios.

Mas, é possível sim reunir amigos para o lazer, confraternizar, torcer e, ao mesmo tempo, estar atento aos desvios de conduta, sejam eles dos políticos, da CBF ou federações que dirigem o esporte. Há espaço para todos nesse campo, menos para o senso comum e generalidades disseminados por aqueles se acham os críticos do momento.

Como disse Tico Santa Cruz, líder da banda Detonautas, "é possível torcer pela sua seleção, e ao mesmo tempo ter consciência de que como cidadão temos também o dever e a responsabilidade de lutar por um país mais justo, mais digno, onde nossos direitos sejam respeitados, onde os impostos sejam revertidos para seus devidos fins. Podemos ser cidadãos e torcedores, o que não podemos é ser só torcedores", finalizou

Nada mais exemplar disso do que os figurantes, tão criticados nas redes por trabalharem gratuitamente na Copa, que fizeram em plena final da competição uma das mais famosas manifestações dos últimos dias, como pode-se ver na fotos ao lado. Agora, eles são elogiados por estes mesmos que os criticavam.

Parafraseando, portanto, aquilo que é espalhado na internet, é sim possível dizer: enquanto te exploras, tu gritas gol e também #vemprarua.

Por Leandro de Jesus

18 junho, 2013

Manifestantes em Poá ocupam a Câmara e apresentam reinvidicações

Foto: Marco Aurélio
Há pouco mais de um ano a Câmara de Poá era tomada por manifestantes contra o abusivo aumento salarial dos políticos da cidade. Agora, os ativistas demonstraram o enorme descontentamento com o transporte coletivo municipal e, no plenário, exigiram mudanças imediatas. 

A manifestação começou em frente ao legislativo municipal, tomou as ruas de cidade e paralisou completamente o viaduto. Na sequência, o grupo se encaminhou até a Rodovia Henrique Eroles (São Paulo-Rio) e interditou o tráfego na via que liga Itaquaquecetuba-Poá-Suzano

Foto: Rodrigo Gonçalvez
No início da sessão da Câmara Municipal, o movimento tomou conta do plenário e exigiu a leitura da carta de reivindicações. Não há previsão regimental para tribuna livre mas movimento conseguiu expor as exigências.

Foto: Rodrigo Gonçalvez
De acordo com o movimento, a Prefeitura deve começar imediatamente a redução da tarifa até chegar a zero. Como primeiro ato, o valor tem de baixar para R$ 1,00. Os manifestantes alegam que há recursos suficientes para o executivo subsidiar a passagem, como ocorre em todo o mundo. A arrecadação municipal deve chegar aos R$ 360 milhões este ano.

O movimento exige desde já passe livre para os estudantes, municipalização do transporte público, contratação de cobradores para todos os veículos, com garantia de direitos trabalhistas e disponibilização de ônibus com acessibilidade aos deficientes.

Os ativistas entendem que, assim como a educação e saúde, o transporte público é um direito e deve ser gratuito para que possam exercer plenamente a cidadania. Por isso, o poder público deve investir garantindo transporte público, gratuito e de qualidade.

Prefeito
Na manhã desta terça-feira, o Prefeito Testinha emitiu nota informando que encaminhou ofício à Radial para avaliar se é possível reduzir o valor. É bom lembrar que o prefeito tem o direito de decretar a redução a qualquer momento, como fez quando reajustou. O ofício não altera a situação em nada pois somente o prefeito é quem tem o direito e é responsável por alterar.

Veja AQUI vídeo da manifestação
Veja FOTOS

 Por Leandro de Jesus

14 junho, 2013

Estado falido não dialoga, reprime com violência

Jornalista baleada - Foto: Diego Zanchetta/Estadão
O povo vai às ruas, cansado de ser tratado como gado em transporte público, caro, lotado, sem qualidade. O Estado, falido, que não é capaz de controlar manifestação democrática, é truculento, violento e promove barbárie em pleno centro da capital mais "desenvolvida" do Brasil. O Estado existe para se antever, dialogar, planejar, organizar e por em práticas políticas para o bem coletivo, além de tratar os desiguais de forma desigual. Isso não existe em São Paulo, é utopia. As cenas desse dia 13 são de horror.

O aumento de R$ 0,20 nas tarifas de ônibus, metrô e trem é apenas o estopim para as enormes manifestações nas ruas. Quem precisa trabalhar ou estudar enfrenta transporte lotado desde as 4 ou 5h da manhã. É desumano. O cidadão chega aos compromissos já exausto pela maratona. Não há qualidade de vida, apenas perda de saúde. O Estado e parte da mídia grande fingem não ver. Bilhetes únicos, transferências gratuitas não resolvem os problemas para essa massa que sai das periferias para trabalhar nos grandes centros. Infelizmente, nossas cidades não priorizam transporte público.

Decerto, alguns poucos manifestantes até extrapolaram, num ato emocional, talvez já num ato de grito, de desespero para chamar atenção ao caos do transporte público. Eles podem errar. Se houve excesso de uns, nada, porém, justifica a violenta repressão a todos por parte do Estado. Este, por sua vez, não tem o direito de errar. Seria despreparo das forças públicas ou uma ação política deliberada do governo?

A violência estatal atingiu jornalistas que trabalharam nas manifestações. Alguns foram presos e outros feridos com tiro no rosto, algo comum apenas em ditaduras. Veja balanço dos feridos da Folha de S. Paulo. Pasmem, o jornalista Piero Locatelli da Carta Capital foi preso por portar vinagre em sua mochila. Sim, inacreditável. Veja AQUI o vídeo. "No exercício do jornalismo fui tratada como criminosa em cobertura de protesto contra tarifa de transporte público em São Paulo. Mas nem os criminosos devem ser tratados assim", conta a repórter Gisele Brito. Veja AQUI. Outro VÍDEO demonstra o ataque gratuito aos profissionais da imprensa. Um fotógrafo corre o risco de perder a visão.

Não são poucos os relatos de que a manifestação era pacífica e o confronto iniciou após a PM jogar bombas e atirar nos jovens. Muitos gritavam "sem violência". Neste VÍDEO, jovens ajoelhados são atingidos por tiros.

A violência midiática de ontem não difere muito do que ocorre na periferia, diariamente. Em seu blog, Azenha relata essa experiência descoberta agora pela classe média paulistana.

"Manifestantes não podem ser presos sob acusação de formação de quadrilha, crime inafiançável. Se isso vier a prevalecer, estaremos entrando num cenário de ditadura contra a luta social. Será um novo AI-5, o instrumento que faltava para a tão sonhada criminalização dos movimentos sociais que vem sendo arquitetada há tanto tempo pelas forças conservadoras do país", disse Rovai em seu Blog. No último balanço, havia aproximadamente 200 prisões e cerca de 100 feridos.

A Anistia Internacional demonstrou em nota seu temor aos acontecimentos em São Paulo. "Também é preocupante o discurso das autoridades sinalizando uma radicalização da repressão e a prisão de jornalistas e manifestantes, em alguns casos enquadrados no crime de formação de quadrilha. O transporte público acessível é de fundamental importância para que a população possa exercer seu direito de ir e vir, tão importante quanto os demais direitos como educação, saúde, moradia, de expressão", diz o texto.

Não há outro termo a dizer, o Estado comprova sua falência utilizando da pior forma seu direito ao uso do monopólio da força. O cidadão pode, mas o governo não tem o direito de errar. Se há alguém que deva ser julgado nesse momento, são os governantes que se omitem diante da violência. Ou melhor, em seus gabinetes,  aplaudem a guerra urbana. 

Devemos continuar intolerantes. Intolerantes contra essa política oficial de Estado, que dissemina a barbárie.

Por Leandro de Jesus

PS: O que explica um policial quebrar o vidro de sua própria viatura, flagrado em VÍDEO que corre na internet?