Nem defesa do governo, nem impeachment. Nem dia 13, nem dia 15

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Quase cinco meses após a abertura das urnas, o Brasil parece ainda viver o clima eleitoral. Quase um
Fla-Flu. Agora sem Aécio como oponente, ou defende-se o governo ou pede-se o impeachment da presidenta Dilma. Trata-se de um tolo antagonismo que impede um debate mais aprofundado dos problemas estruturais políticos e econômicos. Pior, municiados por uma rasa informação repercutida pela imprensa, o embate despolitiza e impede a agenda de alternativas melhores para o país.

Convocadas por centrais sindicais, movimentos sociais e estudantes, a manifestação do próximo dia 13 pretende defender os direitos dos trabalhador, a Petrobrás de sua privatização, exigir a reforma política e contrapor os "golpistas". Luta legítima que neste momento ficará em segundo plano e fará com que o ato sirva apenas para defender o governo federal, que, diante da inação na crise política, demonstra-se cada vez mais indefensável.

É inegável a política positiva na área econômica do primeiro mandato da presidenta Dilma. Assim como falou no discurso em rede nacional no último dia 08, o governo implementou diversas medidas para garantir empregos e manter a atividade econômica, como a redução de tributos, incentivo ao crédito e política cambial. Foram medidas anticíclicas que serviram aos trabalhadores e aos patrões.

O que se observa agora é que tais arranjos ultrapassaram um limite razoável e hoje há exigência de um esforço enorme dos brasileiros para voltar ao equilíbrio. E a política de austeridade implementada pelo novo Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, atacou diretamente benefícios previdenciários e trabalhistas, os quais atingem sobretudo os trabalhadores mais precarizados. Além disso, a desoneração das folhas de pagamento foram revistas e a tendência é aumentar o desemprego e a informalidade.

Quem pagará ao final das contas? O trabalhador, claro. Qual a contrapartida na redução da máquina pública ou na criação de uma tributação sobre quem mais pode, como os que detém grandes fortunas? Nada. Houve redução de recursos na educação (Pátria Educadora?) que já afetam programas desenvolvidos em universidades. Como defender um governo que age assim?  Como defender um governo que fez uma campanha classista no segundo turno e entregou ministérios a conservadores, liberais e representantes do capital?

O governo age ainda como se estivesse quase nocauteado. Fulminado por denúncias de corrupção, não reage, não dialoga, não se comunica. Continua refém de um congresso fisiologista que vive das negociatas. Recém iniciado, o mandato da presidenta não apresenta qualquer reação que anime os cidadãos, nem mesmo a quem a apoiou. Estranhamente, parece que aguarda apenas a punhalada final.

Isso posto, com um quadro absolutamente ruim, nada justifica pedidos de impeachment. As manifestações de descontentamento são legítimas e necessárias, mas quem deseja o breve fim do governo Dilma indubitavelmente trabalha contra o país. Tanto pela instabilidade jurídica que há de vir, especialmente porque não há nenhuma denuncia de corrupção contra Dilma, quanto pelos que poderão substituí-la. São membros do PMDB os próximos da linha sucessória. Partido amarrado à estrutura arcaica do fisiologismo e das chantagens financeiras, como pode-se ver no caso da Petrobrás. 

Caso, aliás, que advém de um processo político viciado e corrupto, mantido por corruptores de alto grau como exemplo dos empresários de algumas das maiores empreiteiras do mundo e que estão presos neste momento. Nosso problema, portanto, vai além de um nome escolhido como bode expiatório. Está cada vez mais insustentável este modelo de representação.

Nem mesmo as manifestações de junho não foram suficientes para resultar em melhores serviços públicos, maior participação nas administrações e menos ainda na alternância dos políticos. Urge-se, portanto, uma reforma política que possa resgatar a credibilidade dos representantes e que lhes deem a independência necessária para avançar em programas que permitam um desenvolvimento menos desigual, garantindo o mínimo de qualidade de vida.

Neste momento, nenhuma mudança ocorrerá defendendo o governo cegamente, como se pretende no dia 13, ou através do pedido de impedimento da presidenta, no dia 15 de março. Neste Fla-Flu de governismo cego ou de uma direita alienada (ou golpista), não ganha o Brasil. A pressão deve ser ampliada e incidir tanto sobre o Congresso Nacional, ignorado quase sempre, quanto sobre os governos federal, estadual ou municipal.

As ruas devem sim ser ocupadas mas para pressionar por mudanças de rumos nas estruturas políticas. Os resultados positivos para um novo país passam sobretudo a partir de uma reforma política, que garanta representação popular mais democrática e participativa; pela democratização dos meios de comunicação, combatendo o monopólio e permitindo a diversidade de opiniões e; pela reforma tributária, que incida desigualmente sobre os desiguais, promovendo mais justiça social. Sem estas reformas estruturais, mudam-se apenas os nomes na administração do país e a insatisfação continuará a mesma.

Nenhum dos dois atos, até o momento, querem avançar concretamente nestas pautas. Não me contempla, portanto, qualquer destas manifestações de março.

Por Leandro de Jesus
Foto: Valter Campanato/ABr

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