BASTA

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Assim de repente, como no poema do Vinicius, tenho vontade de endoidecer. Semelhante ao rei Davi que se fez de doido, penso em cuspir marimbondos, chutar o pau de barraca, gritar impropérios, esmurrar ponta de faca. Assaltam-me surtos de indignação e nem sei porquê, dá vontade de zombar dos discursos políticos e desmascarar a desfaçatez dos hipócritas de plantão que estão na câmara e na prefeitura da nossa cidade.
Não tenho sangue de barata. Leio os jornais da região todo dia e não suporto mais essa imprensa marrom, chapa branca, sei lá qual a cor, sempre plastificada e sempre ordinária, contente de narrar o cotidiano a partir do viés dos seus ricos proprietários. Não suporto mais a frieza como se noticia o descaso de doentes nos corredores dos hospitais e postos de saúde, a morte de crianças, os acidentes em estradas mal sinalizadas e esburacadas. Não agüento mais assistir o abismo social afastando os dois Poás que compõem a minha cidade.
Dos escombros de minha decepção, do fundo de minha tristeza, tenho ímpetos anarquistas; uma vontade louca de expor como os partidos políticos funcionam dentro da lógica do mercado; como vereadores e a prefeitura se relacionam a fim de atender apenas seus interesses em detrimento de toda coletividade; como cada poaense esquecido nos bairros mais distantes da nossa cidade é tratado com descaso e desdém.
Sei que não basta ficar com os olhos vermelhos. É preciso fazer alguma coisa. Assim, porei o resto de energia que me resta a serviço da justiça. Não continuarei a acreditar que não existe esperança; minhas palavras consistirão numa convocatória para que os poaenses comecem a dizer basta.

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